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Negar a doença não faz com que o vírus desapareça...

A bióloga e professora da UPE Mariana Guenther escreve esta semana sobre o protocolo do Governo do Estado para a volta às aulas em Pernambuco. Ela lembra que, por mais difícil que seja estar em isolamento, precisamos encarar a realidade de que o vírus ainda é uma grande ameaça.

today 16/07/2020
Mariana Guenther
timer 5 min de leitura

Já estamos há mais de quatro meses em isolamento. Chega, né? Cansei! Bora então voltar ao normal?

O Governo do Estado de Pernambuco apresentou ontem (15/7) um protocolo para a volta às aulas na educação básica e ensino superior, com regras de higienização e distanciamento entre os alunos. As salas de aula provavelmente não comportarão todos os alunos, que terão que fazer um sistema de rodízio para assistir às aulas presenciais. As atividades físicas e recreativas estão suspensas. Lanchinho no recreio com os amigos, nem pensar! Abraçar os amigos e as professoras depois de tanto tempo de saudades acumuladas terá que ficar para depois. Ou seja, os alunos só irão assistir às aulas e voltar para casa, e tudo isso sem tocar na máscara! Beber água e ir ao banheiro serão tarefas hercúleas – imaginem o estresse das crianças ao entrarem naquele campo minado, com medo do vírus invisível que pode estar em todos os lugares. Mas enfim, temos que voltar!

As academias também já estão se preparando para voltar, com álcool em gel à disposição para todos! Ainda bem que todos estaremos de máscaras, assim não corremos o risco de ficarmos bêbados de tanto álcool no ar. Mas, você já tentou correr 30 minutos na esteira de máscara? E não vale suar, suor e máscara não combinam. Pelo menos temos ar condicionado, e vamos torcer para que os vírus morram de frio também!

Que bom! Já não aguentava mais esse isolamento! Saudades de andar pela rua, de abraçar meus amigos... opa! Não pode abraçar! Nem mandar beijinhos de longe porque estaremos todos de máscaras. A gente sorri com os olhos, e tudo bem. O importante é estar livre!

Mas... alguém avisou ao vírus que de agora em diante ele está dispensado? Pode sumir, já deu! Queremos voltar à vida normal. Às vezes parece que de tanto tempo dentro da nossa bolha, o mundo lá fora voltou ao normal e poucos de nós ainda não percebemos. A guerra acabou, e só nós ainda estamos no nosso bunker? 

Seria bom se fosse verdade, mas não é. Os dados diários nos saltam aos olhos. Estamos chegando à marca dos 2 milhões de casos (notificados, vale lembrar!) e 75.550 mortes por COVID-19 no Brasil. Esses gráficos abaixo foram retirados do site https://www.worldometers.info/coronavirus/ e mostram o total de casos e óbitos no Brasil até ontem, 15 de julho.


No estado de Pernambuco, contabilizamos 75 mil casos e quase 5800 mortes (somos o 4º estado em número de óbitos, atrás apenas de SP, RJ e CE). Os gráficos abaixo foram retirados do Portal COVID-19 Brasil, e mostram o número de casos e óbitos confirmados no estado de Pernambuco desde o início da pandemia. Esse portal é uma iniciativa de uma equipe de cientistas independentes de várias instituições brasileiras de pesquisa, com apoio da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP.


Mas o argumento de muitos para liberarem as atividades como escolas, academias e comércio em geral é que já estamos atingindo a estabilidade, o “platô” da nossa curva. O que isso quer dizer? Que o número de novos casos não está mais aumentando tanto, ou seja, que a cada dia, a quantidade de novos casos é semelhante à quantidade de novos casos do dia anterior. 

O gráfico abaixo, gerado pela Universidade John Hopkins, uma das maiores bases de dados sobre COVID-19 do mundo, e retirado do site https://91-divoc.com/, mostra as curvas de alguns países, entre eles o Brasil (em destaque em azul). Esse gráfico mostra a quantidade de novos casos por dia desde o dia em que atingimos 100 casos (representado como dia 0 no gráfico) e podemos observar que desde o início de julho (dia 112 no gráfico) estamos com uma média de 40 mil novos casos por dia. 



Esse mesmo gráfico também mostra os novos casos diários nos Estados Unidos (a curva laranja). Observamos uma estabilização nos EUA a partir de meados de abril e até uma ligeira redução no número de novos casos entre maio e junho. Por isso, o isolamento social foi liberado lá, e os números que se seguem falam por si sós: o aumento abrupto de novos casos diários nos EUA é o resultado dessa liberação desordenada das atividades. E certamente acontecerá aqui se fizermos o mesmo.

O momento é de extrema cautela. Precisamos manter todas as medidas de proteção e distanciamento para conseguirmos estabilizar e baixar essa curva. Não é o momento de reabrir escolas, academias e o comércio em geral, ou estaremos jogando fora todo o trabalho que tivemos durante os últimos quatro meses e que finalmente está começando a mostrar algum resultado. E no caso das escolas, também não estamos levando em conta o estresse de todos os envolvidos – crianças, pais e professores. Quem conseguirá aprender ou ensinar numa situação dessas?

Infelizmente, não basta querermos muito voltar ao normal. O vírus não vai desaparecer se insistirmos que ele não existe, ou que a COVID-19 é só uma “gripezinha”, ou que basta tomar aquele medicamento que resolve. Se fosse assim, não seríamos o 2º país com mais casos e mais mortes do mundo.

É difícil tomar decisões corretas quando todos ao nosso redor estão fazendo o contrário. Mas os dados estão aí, nos mostrando que não basta uma ligeira estabilização na curva para acharmos que o pior já passou. É preciso continuar monitorando e mantendo todas as medidas de proteção e segurança.

Aguentem firmes e fiquem em casa, para que tudo isso possa passar, de verdade e sem surpresas desagradáveis, o mais rápido possível!

Perguntas ou dúvidas sobre esse assunto? Sugestões de outros temas a serem tratados na nossa coluna? Deixe nos comentários ou envie um e-mail para mariguenther@gmail.com.
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