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Deixemos os morcegos em paz. Eles podem nos salvar!

Neste artigo, a bióloga e professora da UPE Mariana Guenther elenca as principais funções desempenhadas pelos morcegos na natureza. Eles não transmitem a COVID para os humanos e apenas uma das mais de 1400 espécies conhecidas de morcegos se alimenta de sangue de mamíferos.

today 29/06/2020
Mariana Guenther
timer 3 min de leitura

Desde o surgimento do novo coronavírus, os morcegos não tiveram mais paz. Estampando as manchetes dos jornais de todo o mundo, passaram a ser brutalmente perseguidos por pessoas que achavam que assim iam acabar com a COVID-19.


O novo coronavírus – SARS-CoV-2 – é, de fato, muito semelhante a outra espécie de coronavírus naturalmente encontrada em morcegos, o que indica que esta tenha evoluído para a forma que infecta os humanos, ou que tenham os dois vírus evoluído de um vírus ancestral, o que é ainda mais provável. Isso quer dizer que mesmo que os morcegos tivessem sido a fonte do SARS-CoV-2 isso aconteceu uma vez no passado, ou seja, o morcego não transmite a COVID-19.

Vários outros vírus que causam doenças em humanos já foram encontrados em morcegos, como os coronavírus causadores da SARS (SARS-CoV) e da MERS (MERS-CoV), o vírus Ebola, o vírus Marburg, e o vírus da Febre Amarela, por exemplo. Os morcegos apresentam uma ampla resistência aos vírus, o que permite que eles consigam conviver com uma grande diversidade de vírus sem, no entanto, desenvolver a doença. Isso acontece porque o sistema imunológico desses animais é capaz de controlar o vírus sem causar uma grande resposta inflamatória, e assim eles não adoecem. Essa característica única dos morcegos pode ser a chave para o entendimento de como podemos nos proteger de doenças virais no futuro.

Além disso, os morcegos são extremamente importantes para o meio ambiente. Muitos morcegos são insetívoros, ou seja, se alimentam de insetos, e têm um papel fundamental no controle de pragas das plantações, sendo um grande aliado dos fazendeiros. Um morcego pode capturar 1.000 mosquitos em uma hora, sendo extremamente importantes no combate a doenças veiculadas por esses animais, como dengue, zika, chikungunya, malária e febre amarela.

Muitos são frugívoros, se alimentam de frutos, e assim dispersam as sementes, e por isso são importantíssimos na regeneração das florestas. Além disso, suas fezes são ricas em nutrientes e ajudam a fertilizar o solo.

E muitos são nectarívoros, se alimentam do néctar das flores e, portanto, são responsáveis pela polinização de uma grande quantidade de plantas. Aproximadamente 70% das frutas tropicais que nós consumimos são polinizadas ou dispersas por morcegos.

De fato, os morcegos hematófagos, aqueles que se alimentam de sangue dos vertebrados são a imensa minoria desse grupo. Das mais de 1.400 espécies conhecidas de morcegos no mundo, apenas três são hematófagas, sendo que apenas uma, Desmodus rotundus, se alimenta de sangue de mamíferos e aves, as demais atacam apenas aves. Ou seja, todo esse mito em torno do morcego vampiro que suga o sangue humano é baseado em menos de 0,1% de todo um grupo de animais extremamente importantes.